Levou as meninas à locadora. Estavam todas desocupadas, encostadas pela casa naquela tarde infernalmente quente de domingo. O calor já o angustiava. Tinha horror de dias quentes. Suava muito. Tinha verdadeiro horror de suar. Quando se esparramava no sofá preto de pano velho e as dobras do corpo começavam a produzir um sebinho meloso, sentia-se a menor das criaturas. E aquelas meninas ali, suando junto, jogadas pela casa. Que desocupação. Uma cutucava as unhas. Dos pés, o que era pior. A outra mascava chiclete com a boca a aberta e via a televisão. Essa parecia olhar para a parede, porque a televisão não lhe despertava qualquer reação. E olha que o animador de auditório fazia de tudo. Ele não entendeu direito qual era a proposta, mas, enfim, só para não deixar ninguém curioso, vale mencionar que o programa dispunha de uma piscina cheia de amido de milho (sim, amido de milho). E alguns candidatos tentavam passar por cima da piscina sem afundar no amido, que funcionava como uma espécie de areia movediça. O destaque ficava por conta dos candidatos a vencer obstáculo tão pitoresco: algumas mulheres de biquíni, um gordo gigantesco vestido de lutador de sumô, um homem vestido de gorila, algumas dançarinas de can-can, um cadeirante e um homem com seis dedos nos pés. Tirando as gostosas de biquíni, todos conseguiram a façanha. Assim como Cristo caminhou sobre as águas do Mar da Galiléia, o gordo lutador de sumô superou a piscina de amido.
Enfim, digressões à parte, ele achava o programa grotesco e isso já era o suficiente para provocar qualquer tipo de reação da filha, que continuava jogada sobre o sofá, sem esboçar qualquer sentimento ao ver um cadeirante quase se entalar numa piscina de amido.
A outra dormia. Babava e suava simultaneamente. “Onde está a mãe dessas meninas, meu Deus? Onde está a mulher que me ajudou a pôr isso no mundo?”
- Meninas, tenho uma idéia. Vamos à locadora alugar alguns vídeos.
Uau, que reação espetacular! Nenhuma delas se empolgou muito. A bizonha que cutucava as unhas arqueou a sobrancelha. A outra, a da piscina de amido, rosnou. E a gordinha continuou dormindo, babando, suando e agora, tcharan, roncando!
Foi um pai altivo. Levantou, vestiu-se, colocou seu mocassin marron, sua camisa pólo com todos os botões abotoados e conseguiu convencer as meninas a irem junto.
Ao chegarem, duas delas (a das unhas e a do amido) até mostraram alguma empolgação em escolher seus respectivos filmes. A terceira, a babenta e mais gorda de todas, ficou emburrada. As outras escolheram seus DVD´s e pronto. E a gordinha continuou de cara feia.
- Filha, que filme você vai levar?
- Nenhum.
- Nenhum? Você não quer nenhum filme?
- O que eu quero não tem aqui.
- E o que é?
- Pipoca com manteiga.
O pai não se conteve. Olhou para a cria, já de vida independente e tamanho desproporcional e disse:
- Gorda!